Eu amava os pezinhos dela ❤ foto de Narges Pms no Unsplash

Um pouco da nossa história…

Momentos que ficaram na memória

No ano de 2004 eu consegui o meu primeiro emprego formal como psicóloga. Fui trabalhar no projeto social Casa da Família (hoje CRAS) em Alterosa, que é uma cidadezinha (no fim do mundo rs) no sul de Minas Gerais, perto de Alfenas.

Quando cheguei eu acho que dei uma “leve abalada” (rs) nessa cidadezinha rural de 11 mil habitantes na época. Havia uma mentalidade muito atrasada, as meninas lésbicas eram discriminadas, e acabavam se isolando. Uma delas uma vez disse assim: “eu sou lésbica mas sei que é errado, porque não é algo que Deus aprova”, me lembro de termos uma longa conversa, eu tentando convencê-la de que não havia nada de errado com sua orientação sexual.

Acabei ficando amiga de todas, e logo já me abri sobre a minha sexualidade, que era discriminada também, por eu ser bissexual. Naquela época, eu mesma não tinha essa conscientização e me questionava com frequência se eu estava "em cima do muro". Então de alguma forma, sinto que a galera foi “abrindo a cabeça” e saindo do armário, eu não sei exato qual a minha influência nisso, mas nos 2 anos que morei lá fui percebendo muitas coisas mudando…

Um pouco depois que cheguei conheci a Paula, ela foi minha primeira namorada, e eu a primeira mulher que ela ficou, ficamos grudadas, viajamos e curtimos muito juntas. No meu texto “Destrinchando o Ciúme” aqui na revista eu falei um pouco da nossa relação, nós tínhamos uma certa liberdade, mas era meio que um acordo implícito, a gente não tinha as ferramentas pra sentar e conversar e acordar um amor livre

A cidade era tão pequena e retrógrada, e eu com tantos planos e sonhos, sempre que era possível eu viajava à São Paulo para sair na balada e curtir, conhecer pessoas novas, explorar a minha bissexualidade recém "descoberta". Numa dessas baladas conheci uma outra mulher e me apaixonei. A Paula também estava indo pra Poços de Caldas e havia conhecido uma pessoa lá e estava se apaixonando…

Então nosso término foi relativamente tranquilo, apesar daquela dor de deixar tanta coisa especial pra trás. No dia que conversamos e decidimos que iríamos nos separar e viver coisas novas, fomos à um bar e fizemos uma música, para “celebrar” o nosso término, a música se chama “Momentos” e ela chegou a gravar a música e cantar num festival… até o nosso “fim” foi especial ❤.

Tão linda nossa história,
Tão macia sua pele…
Tão doces os seus beijos, quanta alegria, nossas aventuras…

Vivemos, sorrimos, choramos,
E agora pra onde vamos?
Onde vai dar essa história?
Vamos ser felizes então…

Apesar de tudo que ainda existe em meu coração,
É alegria ou desilusão?
Momentos a viver, é que dirão,
Só quero minha (sua) felicidade então…

Amor onde vamos agora?
Amanhã vou embora…
O que faço com tudo que sinto nessa hora?
Momentos, ficaram na memória…

Na na na na Memória…
Na na na na Nossa História….

A gente manteve contato. No meu primeiro ano na Irlanda eu vim de férias ao Brasil e a convidei pra vir me visitar… Eu estava com saudade e acho que eu tinha esperança de um flashback mas quando fui buscá-la na rodoviária lá estava ela e seu novo amor, uma pessoa linda com quem ela acabou tendo um relacionamento de 12 anos. E ficou tudo bem, eu as recebi com carinho e passamos uns dias juntas, tocamos, cantamos e nos divertimos. A Paula sempre foi uma pessoa leal (o que é diferente de ser fiel) e essa lealdade estava clara pra mim, eu jamais seria insensível ali.

Algo que me marcou muito, foi um dia que ela se abriu pra mim dizendo da raiva que sentia porque seu pai estava sempre se envolvendo com mulheres… Haviam boatos de que ele tinha outra filha. Todos da família sabiam e ressentiam muito isso. Ficava aquele ódio no ar, e o clima não era legal.

Eu tenho a minha visão sobre a traição e em breve quero escrever sobre. Mas um dia eu disse à ela mais ou menos assim:

"Olha, eu sei que ele foi sacana, que ele “quebrou um contrato” com sua mãe e a traiu. Mas pensa, o que tem de tão mal nisso? Ele deve ter se apaixonado, a "amante" não deve ser uma pessoa má, e nem seu pai é… Por que continuar com esse ódio se é uma situação que vai se manter? Não é melhor aceitar e se for o caso, conversa com ele e pergunta porque ele fez isso, sei lá… só não acho que é saudável pra família toda guardar todo esse ódio do seu pai".

Ela me olhou com um olhar de compreensão e um certo alívio…e nunca mais falamos nisso. Eu sinto que a relação dela com o pai melhorou muito, e não tenho certeza, mas gostaria de acreditar que isso se refletiu na família toda.

Eu sempre amei a família dela, que mesmo estando tão longe e distante ainda considero minha família. Sempre tratei seu pai com respeito, não sentia que me cabia julgar, e na verdade acho que não cabe à ninguém…

Hoje eu me perdi nessas lembranças e fiquei refletindo sobre as "marcas" que eu deixei e que essas pessoas especiais deixaram em mim… que nossas relações têm um significado que vai muito além das questões de orientação sexual, do gênero, ou mesmo do envolvimento entre 2 ou mais pessoas…Sinto que os possíveis 'grandes conflitos' que vivenciamos e nos fizeram sofrer tanto, com o passar do tempo se tornam ínfimos, e o quê realmente fica? A gente tem a capacidade de — através das nossas relações — tocar a vida das pessoas pra fazer o bem ou pra causar mais angústia e ressentimento.

Eu e a Paula ficamos juntas por 2 anos, e faz 12 anos que a gente não se vê, mas continuamos amigas ❤.
Nosso relacionamento deu muito certo 😊

PS: A Esther Perel (que eu adoro citar rs) fez num podcast uma pergunta que me intrigou… “Quem você acha que vai aparecer no seu velório?”

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Psicóloga, Doula e Terapeuta de Casais. Mestre em Estudos sobre a Igualdade. Mãe e feminista.

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Ade Monteiro

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