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Aos homens, com carinho…

Ade Monteiro

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Em um momento de profunda conexão com meu íntimo, recebi a seguinte mensagem:

- Converse com os homens!

Me surpreendeu muito essa ideia. Por trabalhar com o parto e a sexualidade feminina, já há alguns anos tenho focado nas mulheres.

O que eu teria a dizer aos homens?
Logo eu, uma mulher cheia de bloqueios, que descobriu o orgasmo e sua bissexualidade aos 23 anos após 3 longos anos em conflito e processo de aceitação.

Logo eu, que rasguei em pequenos pedaços a primeira carta de amor que recebi, e enviei os pedaços de volta ao pretendente no envelope.

Logo eu, que perdi minha virgindade bêbada, com um homem que não me respeitava.

Logo eu, que peguei uma carona errada, fui levada a uma estrada de terra e sofri uma violência sexual a qual me culpo eternamente.

Logo eu, que descobri minha puberdade na "festa do peão". Fui com a família aos 11 anos, era uma criança, mas fui tão violentamente assediada pelos homens, que naquele dia percebi que não era mais uma criança.

Logo eu, que quando tinha 12 anos fui assediada por 1 hora no ônibus a caminho de casa por um homem bem mais velho que pedia beijos e queria "namorar" comigo, e ninguém do ônibus disse nada.

Logo eu, que vi tantos "tarados" desde a minha infância, mostrando o pênis e se masturbando, murmurando indecências sobre meu corpo, e nunca fui orientada a denunciar ou reclamar para as autoridades.

Logo eu, que vivi numa geração de assédio contínuo e desrespeito ao corpo da mulher, e cresci, como tantas outras, achando que aquilo tudo era normal e que deveríamos ficar lisonjeadas pelos "elogios" daqueles homens.

Logo eu, que guardo tanta mágoa dos homens.
Minha mágoa é ancestral.

Mas talvez seja isso…

Eu preciso sentar de frente aos homens. Olhar em seus olhos, segurar suas mãos….
Preciso falar das minhas angústias, das minhas mágoas, do quanto fui ferida.

Também quero ouvi-los.

Preciso entender suas razões…
Eles também devem ter sido feridos.
Ninguém em saudável consciência pode escolher romper todos os limites de um corpo, arrancar a inocência, a beleza, o prazer, roubar a vida, sem receber nada em troca. Amor e entrega eles não receberam, se é o que procuravam.

Eu preciso fazer as pazes com os homens.

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Ade Monteiro

Psicóloga, Doula e Terapeuta de Casais. Mestre em Estudos sobre a Igualdade. Mãe e feminista.